O mestrado de um famoso arquiteto foi baseado em um estudo a respeito da urbanização e arquitetura de uma favela. O estudo consistia em redesenhar um dos barracos e esperar o que aconteceria em seu entorno. A reforma foi feita. Colocaram um muro bonito, cerâmica, além de uma pintura moderna com alguns detalhes. Imaginou-se que em virtude da pouca renda dos moradores ninguém faria algo igual que não fosse patrocinado, ledo engano, os vizinhos pegaram empréstimos, tiraram dinheiro da poupança, rebolaram de todas as formas para que suas moradias não ficassem tão distantes da reforma do agora “melhor barraco” da favela.
O estudo também demonstrou que o dono do novo barraco chegou a ser hostilizado, principalmente no início, houve questionamentos sobre tudo: alvará da construção, barulho, a tinta forte prejudicaria a água do local, enfim, muitos moradores não aceitavam o fato do Fulano de tal ter a melhor moradia. Por que ele seria tão diferente, se nem ao menos era chefe do tráfico? Ele era apenas um morador comum, um igual, não poderia ser nunca diferente de nós, isso é injusto.
Aos poucos muitos barracos foram fazendo suas reformas e os mais ousados colocaram produtos ainda melhores do que o precursor, no final, tudo ficou bem, ninguém mais se destacava tanto em relação aos demais, todos eram como melancias em uma prateleira, todos eram iguais.
Eu acredito que não vale a pena você passar a sua vida sendo uma melancia. Eu aconselho que você lute contra aqueles que não querem deixar você se destacar. Sua família, seus amigos, companheiros de trabalho, ninguém mesmo pode lhe ajudar nessa missão, precisa muita coragem, muita vontade de se libertar das amarras sociais e das verdades absolutas pregadas pelos evangelistas modernos. Apenas os que têm um coração tão puro e ao mesmo tempo visionário poderão lhe ajudar nessa jornada. É achar agulha no palheiro.
Você vai aprender o idioma Russo para se destacar e as pessoas vão chamar você de louco, vão dizer que você precisa estudar inglês. Você vai passar um ano fora estudando e seus amigos vão dizer que é bobagem, que o Brasil é emergente e você não precisa ir mais pra fora. Você vai lançar um plano audacioso no seu trabalho e o seu supervisor vai dizer que não é o momento de lançar esse projeto, ou mesmo, que ele precisa de um monte de retoques. Você vai querer vender seu apartamento para investir em um negócio e seus pais vão dizer que quem casa, quer casa. Nos EUA, crianças de 7 anos montam uma barraca em frente suas casas para vender limonada em suas comunidades, os pais apóiam, os vizinhos apóiam. Aqui é diferente. Você monta um negócio e a galera fica desconfiada, pior, torcendo para você quebrar. Já percebeu que tem muito brasileiro ganhando dinheiro lá fora? Pois é, criatividade e apoio geram uma hecatombe em sua veia empreendedora.
Eu continuo achando que isso vai demorar uns 100 anos para mudar. Eu terei 133 anos nesse dia, o que fazer, desistir? Eu sou #facanacaveira rapaz, eu não vou deixar ninguém dizer o que eu tenho que fazer, eu não vou ouvir nenhum conselho que tente frear meus sonhos (mergulhar com os tubarões brancos), eu não vou ouvir ninguém que eu perceba o desejo profundo de me ver inerte, permanecendo na prateleira das melancias.
Você precisará lutar, vai ser uma guerra. A boa nova é que eu conheço um monte de gente que conseguiu vencer essa parada, tem gente que lutou contra o sistema e melhorou bastante o mundo. Estes caras viraram MELÃO, é isso mesmo, melão. Quando você avista um melão na prateleira das melancias há logo um desconforto, é quase um instinto tirá-lo de lá, afinal, por sua cor e tamanho ele está se destacando, nós não gostamos disso, queremos tudo arrumadinho, assim como nossas casas, nossas vidas, nossos vizinhos e as prateleiras dos supermercados.
E ai, vai continuar sendo uma melancia? Quebre a banca!
Blog do Fabricio Medeiros
http://www.fabriciomedeiros.com.br/artigos/130-vai-continuar-sendo-uma-melancia.html
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